Hoje fiz uma das coisas que mais gosto. Reservei um tempo pra revirar coisas antigas. Não imaginei que uma mochila velha em cima do armário iria me render tão bons pensamentos. Logo de cara encontrei a chave do lugar onde eu guardava o uniforme do meu primeiro emprego. Tinha também um CD que eu estava procurando há muito tempo, algumas medalhas que fizeram com que eu me arrependesse de não ter voltado pra ginástica rítmica, o estetoscópio que eu usava quando ainda acreditava que a faculdade daria certo, e um bilhete que um um ex namorado me deu, quando eu já sabia que o namoro daria errado. Passei pra outra parte do armário e era ali que estavam guardadas as melhores lembranças. Cartas, muitas cartas.. escritas a mão e em máquina de escrever.. e que nunca foram entregues. Havia também alguns bilhetinhos de amigos e muitos corações recortados. Aí chegou a hora de ler os cadernos, lotados de matéria.. mas a cada dez folhas, algum texto bobo que nascia no intervalo das aulas, ainda cheios de rabiscos. Terminei alguns que não estavam completos e copiei outros, dos quais eu já tinha esquecido. Agendas antigas, potinhos de tinta e ingressos de cinema e teatro.. mas quando eu pensei que já tinha visto tudo, me deparei com a melhor parte. Uma caixinha de madeira rosa, com um coração vazado e, dentro dela, as coisas antigas da minha mãe. Logo por cima estava a carteirinha de estudante, com pouca presença, muita poesia e uma lista de compras escrita no meio das notas: - macarrão, - duas cebolas, - alho, - ovos.. e claro, data alterada pra fingir que tinha dezoito anos. Além disso, alguns recortes de jornal, bilhetes de aniversário e o que eu mais gostei de ver.. um caderninho, já meio amarelado mas em perfeito estado. Todas as músicas que ela gostava, todas as desilusões e todos os textos que ela escreveu estavam ali. Descobri que na minha idade a minha mãe sentia exatamente o que eu estou sentindo agora. Li um pouco mais e, entre várias outras coisas, ela começou a escrever sobre a vontade de ter um filho. Mais folhas soltas.. mais poesia.. mais desilusões. Os meses foram passando no alto das páginas até que, finalmente, ele surgiu.. o amor. Aí cheguei na última folha - exatamente na última folha do último caderno de poesia da minha mãe - e encontrei outra lista de compras, mas, dessa vez, diferente:
- fralda, - mamadeira, - hipoglós..
.. e ela me disse que depois que foi feliz, nunca mais conseguiu escrever.