Vem, me abraça forte e feche os olhos. Se lembre do carinho do teu filho e do rosto da tua mãe. Recolha teus sonhos não vividos, tuas eternidades curtas e todas as pétalas que coloriram teu longo caminho. Guarde-as no teu lugar mais bonito. Acolha teus encantos, teu medo de mar, tua mania de rir e tua dança na chuva. E se alegre antes de tudo terminar. Se alegre que essa foi a tua vida. Tua avenida enfeitada de margaridas e de erros tão lindos. Lindos porque são teus. Lindos como os teus olhos cansados. Vem que esse mundo não dá conta do amor que a gente decorou a vida inteira. Tente não ouvir os chamados que tudo já vai desabar sobre nós. E debaixo de todos os pedaços de história que irão nos cobrir e nos levar embora, não será o último dia, porque amores não combinam com finais. Não se preocupe. Lá estaremos plantados porque é assim que se começa. Como as sementes das mesmas margaridas que outrora forraram teus caminhos. Também tão lindas. Como você e esses teus olhos que nunca mais se abrirão em belas manhãs de domingo. Pobres manhãs que terão que existir sem te ver acordar. Descanse agora que o céu está sorrindo e vestido de nuvens só esperando a gente chegar. Esse é só o começo do fim da nossa vida..
sábado, 25 de agosto de 2012
Vem, me abraça forte e feche os olhos. Se lembre do carinho do teu filho e do rosto da tua mãe. Recolha teus sonhos não vividos, tuas eternidades curtas e todas as pétalas que coloriram teu longo caminho. Guarde-as no teu lugar mais bonito. Acolha teus encantos, teu medo de mar, tua mania de rir e tua dança na chuva. E se alegre antes de tudo terminar. Se alegre que essa foi a tua vida. Tua avenida enfeitada de margaridas e de erros tão lindos. Lindos porque são teus. Lindos como os teus olhos cansados. Vem que esse mundo não dá conta do amor que a gente decorou a vida inteira. Tente não ouvir os chamados que tudo já vai desabar sobre nós. E debaixo de todos os pedaços de história que irão nos cobrir e nos levar embora, não será o último dia, porque amores não combinam com finais. Não se preocupe. Lá estaremos plantados porque é assim que se começa. Como as sementes das mesmas margaridas que outrora forraram teus caminhos. Também tão lindas. Como você e esses teus olhos que nunca mais se abrirão em belas manhãs de domingo. Pobres manhãs que terão que existir sem te ver acordar. Descanse agora que o céu está sorrindo e vestido de nuvens só esperando a gente chegar. Esse é só o começo do fim da nossa vida..
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Não há lares pra todos. Nem mares, nem abraços ou poesia. Não há nada que nos salve ou que dê ao mundo ideia mais bonita que a vertigem conformada e estagnada que o habita. Não aqui. Não há futuro algum que revele sândalos que brotam em bosques imaginários e, em nós, qualquer coisa com cor de arco-íris. Agora as flores caem durante a primavera, verões são folhas secas e o outono, quase inútil, prepara o berço pro tempo dormente de nuvens carregadas de falta de amor. Não há nada que as reprima. Precipitam em precipícios de sentimentos que residem, quase sempre, em um lado só. Escorrem pelo chão e pelos olhos nos enfeitando com sua beleza patética. Ou poética. O senhor do mundo é o abismo por onde caem, de mãos dadas, ideais e eternidade. Efêmeras alegrias tomam conta de corações cansados que, trôpegos, se arrastam e se sustentam em edifícios de areia e castelos de promessas vãs.
Queria encontrar um lugar melhor pra morar. Pra onde eu pudesse levar todos os jardins que eu aguentasse em minhas costas. Seria forte o bastante pra trazer você comigo. Eu, você e mil jardins num novo abrigo. Forrado de sonhos e bordado de estrelas.
Algum tempo depois, seria finito tudo mais que não fosse nós dois..
E o mundo, por erro ou por sorte
Em seu leito de rio e de morte
Nos diria em seu fim prematuro ou tardio:
'Tolo fui eu, que tentando me privar da dor
Escolhi não morrer de amor
E acabo por morrer de vazio.'
Queria encontrar um lugar melhor pra morar. Pra onde eu pudesse levar todos os jardins que eu aguentasse em minhas costas. Seria forte o bastante pra trazer você comigo. Eu, você e mil jardins num novo abrigo. Forrado de sonhos e bordado de estrelas.
Algum tempo depois, seria finito tudo mais que não fosse nós dois..
E o mundo, por erro ou por sorte
Em seu leito de rio e de morte
Nos diria em seu fim prematuro ou tardio:
'Tolo fui eu, que tentando me privar da dor
Escolhi não morrer de amor
E acabo por morrer de vazio.'
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Era noite e fazia frio. Lá estava ele, no mesmo lugar. O olhar sempre vago me fazia pensar que era louco. Talvez só um pouco. Repousando sua loucura solitária por sobre a colcha rasgada a quem tratava muito bem. Todos os dias de manhã enquanto ele caminhava, aparecia alguém que tomando-lhe os trapos, roubava-lhe a casa inteira. Sem qualquer sinal de surpresa ou vestígio de tristeza ele se punha a procurar novos pedaços sobre os quais pudesse se deitar. Era sempre assim. A cada dia uma novidade. Tapetes de prédios eram comuns. Às vezes jornais.. às vezes o corpo direto no chão, e porque os furtos não intimidavam o vizinho indesejado, enormes vasos de plantas tiveram sua beleza injustamente utilizada pra ocupar o seu lugar. Certa noite chovia muito e, sem espaço seco em que pudesse descansar, ele observava o céu de pé entre as grandes estruturas de barro. Era mais gentil e delicado do que tantas pessoas que naquele momento repousavam confortáveis em seus belos e aquecidos quartos. Pela primeira vez vi seus olhos de perto. Não eram vagos. Não eram loucos. Eram absolutamente cegos. Duas esferas pálidas e secas. Deixei com ele uma sacola e junto dela, duas ou três lágrimas. A nova colcha teve destino um pouco mais longo do que o das outras camas que ele inventara mas, passado um tempo, os vasos de planta cumpriram seu papel. Cheguei a pensar que tivesse morrido, ou que fosse um anjo que ninguém mais via. Talvez fosse.
A certeza veio dias depois, quando deparei-me novamente com ele debaixo de uma marquise que brincava de ser castelo e, me encarando com aqueles inesquecíveis olhos rasos e mágicos, ele me disse sem me ver:
'Não sei se te lembras de mim, mas estás ainda mais bonita hoje.'
A certeza veio dias depois, quando deparei-me novamente com ele debaixo de uma marquise que brincava de ser castelo e, me encarando com aqueles inesquecíveis olhos rasos e mágicos, ele me disse sem me ver:
'Não sei se te lembras de mim, mas estás ainda mais bonita hoje.'
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