terça-feira, 14 de agosto de 2012

Era noite e fazia frio. Lá estava ele, no mesmo lugar. O olhar sempre vago me fazia pensar que era louco. Talvez só um pouco. Repousando sua loucura solitária por sobre a colcha rasgada a quem tratava muito bem. Todos os dias de manhã enquanto ele caminhava, aparecia alguém que tomando-lhe os trapos, roubava-lhe a casa inteira. Sem qualquer sinal de surpresa ou vestígio de tristeza ele se punha a procurar novos pedaços sobre os quais pudesse se deitar. Era sempre assim. A cada dia uma novidade. Tapetes de prédios eram comuns. Às vezes jornais.. às vezes o corpo direto no chão, e porque os furtos não intimidavam o vizinho indesejado, enormes vasos de plantas tiveram sua beleza injustamente utilizada pra ocupar o seu lugar. Certa noite chovia muito e, sem espaço seco em que pudesse descansar, ele observava o céu de pé entre as grandes estruturas de barro. Era mais gentil e delicado do que tantas pessoas que naquele momento repousavam confortáveis em seus belos e aquecidos quartos. Pela primeira vez vi seus olhos de perto. Não eram vagos. Não eram loucos. Eram absolutamente cegos. Duas esferas pálidas e secas. Deixei com ele uma sacola e junto dela, duas ou três lágrimas. A nova colcha teve destino um pouco mais longo do que o das outras camas que ele inventara mas, passado um tempo, os vasos de planta cumpriram seu papel. Cheguei a pensar que tivesse morrido, ou que fosse um anjo que ninguém mais via. Talvez fosse.

A certeza veio dias depois, quando deparei-me novamente com ele debaixo de uma marquise que brincava de ser castelo e, me encarando com aqueles inesquecíveis olhos rasos e mágicos, ele me disse sem me ver:

'Não sei se te lembras de mim, mas estás ainda mais bonita hoje.'

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