Quando a noite caiu e a lua surgiu como quem ousa anunciar o fim do dia
o palhaço foi se preparar pra mais uma grande apresentação.
Ainda nos bastidores, ensaiou alguns movimentos, deu alguns saltos e recriou algumas mímicas. Vestiu seu terno mais colorido, colocou sua mais bela gravata e pintou-se com toda atenção. Cuidou dos detalhes mais sutis e menos perceptíveis para que tudo fosse perfeito. No último momento, respirou fundo como quem tenta controlar o nervosismo, colocou os enormes sapatos e, com o coração ainda disparado, abriu as cortinas e subiu ao palco.. em um salto inacreditável. Ao voltar ao chão, com os braços já abertos para se apresentar ao seu público.. deparou-se com o teatro vazio.
Ninguém tinha ido assistir ao palhaço.
Com os olhos fixos no nada e as mãos ainda no ar, ele surpreendentemente abriu o maior de seus sorrisos. Correu como jamais havia corrido, brincou como jamais havia brincado. Deu gargalhadas e inúmeras cambalhotas, enquanto rolava de rir.. sozinho. Fez daquele palco o cenário de suas fantasias e daquela apresentação, a mais contagiante de sua vida.
No fim do espetáculo, abriu os braços novamente, curvou o corpo como que em agradecimento e, nesse momento, o silêncio do teatro vazio fora substituído pelos aplausos inebriantes da alma do próprio palhaço.
Porque a arte não precisa de grandes plateias ou de um belo cenário
Ela nasce de dentro pra fora.. e não ao contrário
A arte renova o mundo ainda que o mundo não a assista
E em troca da gentileza, ele concede inspiração e beleza à alma do artista.