terça-feira, 24 de julho de 2012




Não sei dizer ao certo, mas a dor nas costas me fazia crer que eu já devia estar parado ali por um bom tempo. O céu estava azul como de costume mas, fora ele, tudo era cinza. Não reconheci quase nada e aquele cenário, ainda que curioso, não era exatamente agradável. Caminhei um pouco por entre aquelas estruturas, certamente resistentes mas nada confortáveis. As pessoas agiam de forma engraçada e se dividiam em dois grandes grupos - os que iam e os que vinham - e, de tão apressadas, quase se atropelavam formando um enorme muro de gente, difícil de ultrapassar. Resolvi enfrentar porque o que havia do outro lado parecia uma boa recompensa. Eles tinham barcos. Eram brancos e enormes e a pressa que todos tinham pra alcançá-los me deixou curioso quanto ao que poderia haver do lado oposto. Depois de algum tempo consegui adentrar uma embarcação pra realizar a travessia, mas as pessoas eram tão estranhas por lá que cheguei a pensar que teria sido melhor tê-la feito à nado. Estavam todas enfileiradas sentadas em superfícies difíceis de descrever. Fazia um calor além do que eu estava acostumado e os homens se cobriam com duas ou três peças, tinham o pescoço envolvido por uma espécie de forca e, durante o percurso, olhavam inúmeras vezes as pulseiras que enfeitavam seus braços. Todos tinham formatos, e cabelos, e cores diferentes mas os rostos eram estranhamente iguais e inexpressivos. Não pareciam felizes, o que me deixava confuso quanto ao fato de terem corrido tanto pra chegar ali. Chegamos ao nosso destino e ele não passava de uma versão algumas vezes maior e mais assustadora do nosso lugar de origem. Também não era bonito por lá. As árvores eram poucas e brotavam do chão por pequenos espaços de terra abertos num solo morto, como se ele estipulasse onde elas poderiam ou não estar. Faltava cor bem como faltava ar. Paradoxalmente, sobrava muita coisa. A aldeia crescia pra cima, como se quisessem alcançar o céu. Prepotência ou ingenuidade, era nítido que quanto mais subiam, mais se afastavam dele. Enxuguei o rosto com a sensação pungente de que tudo tinha dado errado. Não.. não era pra ser assim. Resolvi voltar. Pro outro lado. Pro meu lugar. Voltar a ser de aço, de braços cruzados e, dessa vez, de olhos fechados. Certamente seria mais fácil assim.