Ela corria como quem quer chegar mas girava e dançava cirandas e sorrisos como quem se esquece que existe o tempo. As tranças brincavam junto ao vento enquanto o vestido não se preocupava tanto com ele. Às vezes caía e rolava e ria de si mesma, e limpava as mãos na roupa, se sujando ainda mais. Coisas belas de criança. Corria, tropeçava e corria. Corria e ria mais um pouco. Até que avistou alguém que, ao contrário dela, caminhava mais por costume que por vontade. Não dançava nem brincava. Cabelos brancos e corpo quase sem corpo. O rosto cheio de rugas, que seriam lindas se não residissem num lugar tão apático. As duas se viram. Senhora e menina. Olharam-se nos olhos e depararam-se com o mesmo céu. Entenderam-se iguais em nuvens, sol, gaivotas e balões. Lágrimas insistentes nasciam enquanto a menina se reconhecia. E era tudo preto e branco do outro lado. Tudo desbotado no céu de seu futuro. Ela procurou alguma alegria esquecida entre as estrelas, algum pedaço de azul perdido naquele infinito opaco. Nada. Saiu correndo e, dessa vez com pressa, caía e não ria, tropeçava e chorava. A sua tristeza era a esperança da senhora. As tranças agora travavam uma luta contra o vento e o vestido, ainda despreocupado, era apertado com força pelas mãos cheias de terra e de medo. Chegou em casa e abriu as gavetas. Arrancou delas cadernos e brinquedos. Olhou por toda parte, arrastou móveis, sonhos e desesperos. Levantou lençóis e se pôs novamente a chorar. Até que se lembrou da mochila. A mochila velha das aulas de artes. Abriu correndo e tirou os vazios e o guarda-chuva. E com o sorriso tranquilo de quem encontra uma solução mágica pra apagar de sua vida a futura dor.. fechou os olhos aliviada, deitou em sua cama e dormiu abraçada.. com sua caixinha de lápis de cor.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
sábado, 25 de agosto de 2012
Vem, me abraça forte e feche os olhos. Se lembre do carinho do teu filho e do rosto da tua mãe. Recolha teus sonhos não vividos, tuas eternidades curtas e todas as pétalas que coloriram teu longo caminho. Guarde-as no teu lugar mais bonito. Acolha teus encantos, teu medo de mar, tua mania de rir e tua dança na chuva. E se alegre antes de tudo terminar. Se alegre que essa foi a tua vida. Tua avenida enfeitada de margaridas e de erros tão lindos. Lindos porque são teus. Lindos como os teus olhos cansados. Vem que esse mundo não dá conta do amor que a gente decorou a vida inteira. Tente não ouvir os chamados que tudo já vai desabar sobre nós. E debaixo de todos os pedaços de história que irão nos cobrir e nos levar embora, não será o último dia, porque amores não combinam com finais. Não se preocupe. Lá estaremos plantados porque é assim que se começa. Como as sementes das mesmas margaridas que outrora forraram teus caminhos. Também tão lindas. Como você e esses teus olhos que nunca mais se abrirão em belas manhãs de domingo. Pobres manhãs que terão que existir sem te ver acordar. Descanse agora que o céu está sorrindo e vestido de nuvens só esperando a gente chegar. Esse é só o começo do fim da nossa vida..
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Não há lares pra todos. Nem mares, nem abraços ou poesia. Não há nada que nos salve ou que dê ao mundo ideia mais bonita que a vertigem conformada e estagnada que o habita. Não aqui. Não há futuro algum que revele sândalos que brotam em bosques imaginários e, em nós, qualquer coisa com cor de arco-íris. Agora as flores caem durante a primavera, verões são folhas secas e o outono, quase inútil, prepara o berço pro tempo dormente de nuvens carregadas de falta de amor. Não há nada que as reprima. Precipitam em precipícios de sentimentos que residem, quase sempre, em um lado só. Escorrem pelo chão e pelos olhos nos enfeitando com sua beleza patética. Ou poética. O senhor do mundo é o abismo por onde caem, de mãos dadas, ideais e eternidade. Efêmeras alegrias tomam conta de corações cansados que, trôpegos, se arrastam e se sustentam em edifícios de areia e castelos de promessas vãs.
Queria encontrar um lugar melhor pra morar. Pra onde eu pudesse levar todos os jardins que eu aguentasse em minhas costas. Seria forte o bastante pra trazer você comigo. Eu, você e mil jardins num novo abrigo. Forrado de sonhos e bordado de estrelas.
Algum tempo depois, seria finito tudo mais que não fosse nós dois..
E o mundo, por erro ou por sorte
Em seu leito de rio e de morte
Nos diria em seu fim prematuro ou tardio:
'Tolo fui eu, que tentando me privar da dor
Escolhi não morrer de amor
E acabo por morrer de vazio.'
Queria encontrar um lugar melhor pra morar. Pra onde eu pudesse levar todos os jardins que eu aguentasse em minhas costas. Seria forte o bastante pra trazer você comigo. Eu, você e mil jardins num novo abrigo. Forrado de sonhos e bordado de estrelas.
Algum tempo depois, seria finito tudo mais que não fosse nós dois..
E o mundo, por erro ou por sorte
Em seu leito de rio e de morte
Nos diria em seu fim prematuro ou tardio:
'Tolo fui eu, que tentando me privar da dor
Escolhi não morrer de amor
E acabo por morrer de vazio.'
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Era noite e fazia frio. Lá estava ele, no mesmo lugar. O olhar sempre vago me fazia pensar que era louco. Talvez só um pouco. Repousando sua loucura solitária por sobre a colcha rasgada a quem tratava muito bem. Todos os dias de manhã enquanto ele caminhava, aparecia alguém que tomando-lhe os trapos, roubava-lhe a casa inteira. Sem qualquer sinal de surpresa ou vestígio de tristeza ele se punha a procurar novos pedaços sobre os quais pudesse se deitar. Era sempre assim. A cada dia uma novidade. Tapetes de prédios eram comuns. Às vezes jornais.. às vezes o corpo direto no chão, e porque os furtos não intimidavam o vizinho indesejado, enormes vasos de plantas tiveram sua beleza injustamente utilizada pra ocupar o seu lugar. Certa noite chovia muito e, sem espaço seco em que pudesse descansar, ele observava o céu de pé entre as grandes estruturas de barro. Era mais gentil e delicado do que tantas pessoas que naquele momento repousavam confortáveis em seus belos e aquecidos quartos. Pela primeira vez vi seus olhos de perto. Não eram vagos. Não eram loucos. Eram absolutamente cegos. Duas esferas pálidas e secas. Deixei com ele uma sacola e junto dela, duas ou três lágrimas. A nova colcha teve destino um pouco mais longo do que o das outras camas que ele inventara mas, passado um tempo, os vasos de planta cumpriram seu papel. Cheguei a pensar que tivesse morrido, ou que fosse um anjo que ninguém mais via. Talvez fosse.
A certeza veio dias depois, quando deparei-me novamente com ele debaixo de uma marquise que brincava de ser castelo e, me encarando com aqueles inesquecíveis olhos rasos e mágicos, ele me disse sem me ver:
'Não sei se te lembras de mim, mas estás ainda mais bonita hoje.'
A certeza veio dias depois, quando deparei-me novamente com ele debaixo de uma marquise que brincava de ser castelo e, me encarando com aqueles inesquecíveis olhos rasos e mágicos, ele me disse sem me ver:
'Não sei se te lembras de mim, mas estás ainda mais bonita hoje.'
terça-feira, 24 de julho de 2012
Não sei dizer ao certo, mas a dor nas costas me fazia crer que eu já devia estar parado ali por um bom tempo. O céu estava azul como de costume mas, fora ele, tudo era cinza. Não reconheci quase nada e aquele cenário, ainda que curioso, não era exatamente agradável. Caminhei um pouco por entre aquelas estruturas, certamente resistentes mas nada confortáveis. As pessoas agiam de forma engraçada e se dividiam em dois grandes grupos - os que iam e os que vinham - e, de tão apressadas, quase se atropelavam formando um enorme muro de gente, difícil de ultrapassar. Resolvi enfrentar porque o que havia do outro lado parecia uma boa recompensa. Eles tinham barcos. Eram brancos e enormes e a pressa que todos tinham pra alcançá-los me deixou curioso quanto ao que poderia haver do lado oposto. Depois de algum tempo consegui adentrar uma embarcação pra realizar a travessia, mas as pessoas eram tão estranhas por lá que cheguei a pensar que teria sido melhor tê-la feito à nado. Estavam todas enfileiradas sentadas em superfícies difíceis de descrever. Fazia um calor além do que eu estava acostumado e os homens se cobriam com duas ou três peças, tinham o pescoço envolvido por uma espécie de forca e, durante o percurso, olhavam inúmeras vezes as pulseiras que enfeitavam seus braços. Todos tinham formatos, e cabelos, e cores diferentes mas os rostos eram estranhamente iguais e inexpressivos. Não pareciam felizes, o que me deixava confuso quanto ao fato de terem corrido tanto pra chegar ali. Chegamos ao nosso destino e ele não passava de uma versão algumas vezes maior e mais assustadora do nosso lugar de origem. Também não era bonito por lá. As árvores eram poucas e brotavam do chão por pequenos espaços de terra abertos num solo morto, como se ele estipulasse onde elas poderiam ou não estar. Faltava cor bem como faltava ar. Paradoxalmente, sobrava muita coisa. A aldeia crescia pra cima, como se quisessem alcançar o céu. Prepotência ou ingenuidade, era nítido que quanto mais subiam, mais se afastavam dele. Enxuguei o rosto com a sensação pungente de que tudo tinha dado errado. Não.. não era pra ser assim. Resolvi voltar. Pro outro lado. Pro meu lugar. Voltar a ser de aço, de braços cruzados e, dessa vez, de olhos fechados. Certamente seria mais fácil assim.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
E nada se compara ao que nunca tivemos
Ou a como crescemos
Na ausência de nós
Nada se esquece, envelhece ou se aceita
Nem tampouco se ajeita
Mil anos após
E ainda que eu tentasse mais cinco ou seis vidas
Curar, em vão, a ferida
De não poder te ter
Seriam todas as primaveras perdidas
Pois no último dia
Quando eu fechasse meus olhos
A última imagem
Ainda seria você
Ou a como crescemos
Na ausência de nós
Nada se esquece, envelhece ou se aceita
Nem tampouco se ajeita
Mil anos após
E ainda que eu tentasse mais cinco ou seis vidas
Curar, em vão, a ferida
De não poder te ter
Seriam todas as primaveras perdidas
Pois no último dia
Quando eu fechasse meus olhos
A última imagem
Ainda seria você
quarta-feira, 28 de março de 2012
Hoje eu recebi um recado do tempo.
Ele veio sereno e, sem fazer qualquer rodeio, disse que não descansa.
Com os olhos já encharcados, abaixei a cabeça e - não sem dor - respeitei o seu poder supremo.
Por isso, hoje não haverá poesia por aqui, nem qualquer bobagem que eu chame de texto.
Não existe nada aqui dentro que possa ser transformado em qualquer coisa.
Na verdade, não existe muita coisa.
Eu te amo e é só isso.
E amo o jeito como a gente se transformou.
Não se preocupe, eternidade não parece problema.
Agora vem dormir do meu lado porque desde sempre
E pra sempre
Mas principalmente hoje
Eu quero aproveitar cada segundo de você.
Ele veio sereno e, sem fazer qualquer rodeio, disse que não descansa.
Com os olhos já encharcados, abaixei a cabeça e - não sem dor - respeitei o seu poder supremo.
Por isso, hoje não haverá poesia por aqui, nem qualquer bobagem que eu chame de texto.
Não existe nada aqui dentro que possa ser transformado em qualquer coisa.
Na verdade, não existe muita coisa.
Eu te amo e é só isso.
E amo o jeito como a gente se transformou.
Não se preocupe, eternidade não parece problema.
Agora vem dormir do meu lado porque desde sempre
E pra sempre
Mas principalmente hoje
Eu quero aproveitar cada segundo de você.
domingo, 22 de janeiro de 2012
O palhaço
Quando a noite caiu e a lua surgiu como quem ousa anunciar o fim do dia
o palhaço foi se preparar pra mais uma grande apresentação.
Ainda nos bastidores, ensaiou alguns movimentos, deu alguns saltos e recriou algumas mímicas. Vestiu seu terno mais colorido, colocou sua mais bela gravata e pintou-se com toda atenção. Cuidou dos detalhes mais sutis e menos perceptíveis para que tudo fosse perfeito. No último momento, respirou fundo como quem tenta controlar o nervosismo, colocou os enormes sapatos e, com o coração ainda disparado, abriu as cortinas e subiu ao palco.. em um salto inacreditável. Ao voltar ao chão, com os braços já abertos para se apresentar ao seu público.. deparou-se com o teatro vazio.
Ninguém tinha ido assistir ao palhaço.
Com os olhos fixos no nada e as mãos ainda no ar, ele surpreendentemente abriu o maior de seus sorrisos. Correu como jamais havia corrido, brincou como jamais havia brincado. Deu gargalhadas e inúmeras cambalhotas, enquanto rolava de rir.. sozinho. Fez daquele palco o cenário de suas fantasias e daquela apresentação, a mais contagiante de sua vida.
No fim do espetáculo, abriu os braços novamente, curvou o corpo como que em agradecimento e, nesse momento, o silêncio do teatro vazio fora substituído pelos aplausos inebriantes da alma do próprio palhaço.
Porque a arte não precisa de grandes plateias ou de um belo cenário
Ela nasce de dentro pra fora.. e não ao contrário
A arte renova o mundo ainda que o mundo não a assista
E em troca da gentileza, ele concede inspiração e beleza à alma do artista.
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