Ela corria como quem quer chegar mas girava e dançava cirandas e sorrisos como quem se esquece que existe o tempo. As tranças brincavam junto ao vento enquanto o vestido não se preocupava tanto com ele. Às vezes caía e rolava e ria de si mesma, e limpava as mãos na roupa, se sujando ainda mais. Coisas belas de criança. Corria, tropeçava e corria. Corria e ria mais um pouco. Até que avistou alguém que, ao contrário dela, caminhava mais por costume que por vontade. Não dançava nem brincava. Cabelos brancos e corpo quase sem corpo. O rosto cheio de rugas, que seriam lindas se não residissem num lugar tão apático. As duas se viram. Senhora e menina. Olharam-se nos olhos e depararam-se com o mesmo céu. Entenderam-se iguais em nuvens, sol, gaivotas e balões. Lágrimas insistentes nasciam enquanto a menina se reconhecia. E era tudo preto e branco do outro lado. Tudo desbotado no céu de seu futuro. Ela procurou alguma alegria esquecida entre as estrelas, algum pedaço de azul perdido naquele infinito opaco. Nada. Saiu correndo e, dessa vez com pressa, caía e não ria, tropeçava e chorava. A sua tristeza era a esperança da senhora. As tranças agora travavam uma luta contra o vento e o vestido, ainda despreocupado, era apertado com força pelas mãos cheias de terra e de medo. Chegou em casa e abriu as gavetas. Arrancou delas cadernos e brinquedos. Olhou por toda parte, arrastou móveis, sonhos e desesperos. Levantou lençóis e se pôs novamente a chorar. Até que se lembrou da mochila. A mochila velha das aulas de artes. Abriu correndo e tirou os vazios e o guarda-chuva. E com o sorriso tranquilo de quem encontra uma solução mágica pra apagar de sua vida a futura dor.. fechou os olhos aliviada, deitou em sua cama e dormiu abraçada.. com sua caixinha de lápis de cor.
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ResponderExcluir"O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor"